‘Não conseguia me olhar no espelho’, diz mulher trans atacada com garrafa em Rosário, no MA
Mulher trans atacada com garrafa quebrada em Rosário relata dor e trauma
Mulher trans atacada com garrafa quebrada em Rosário relata dor e trauma
Guida Calvet, de 24 anos, ainda sente dores pelo corpo e tenta lidar com os traumas psicológicos após ser atacada por um homem com uma garrafa de cerveja quebrada. O crime aconteceu no último domingo (19), em Rosário, a 69 km de São Luís. A motivação ainda é investigada.
Segundo Guida, ela estava em um bar com amigos quando foi chamada pelo suspeito para conversar perto da praça. A jovem afirma que não houve discussão ou desentendimento. Quando se preparava para ir embora de bicicleta, foi surpreendida pelas agressões.
O suspeito, identificado como Alberto Felipe Caires Mendonça, de 20 anos, foi preso preventivamente na quinta-feira (23). A Polícia Civil do Maranhão investiga o caso como tentativa de homicídio qualificado.
Guida sofreu ferimentos na cabeça, no rosto e no tórax. Ela passou duas noites no hospital e registrou a ocorrência na delegacia. De acordo com a polícia, o ataque só terminou após a intervenção de uma pessoa que presenciou o crime.
“O meu braço ainda não me deixa dormir direito. Ainda sinto dor constante”, contou Guida em entrevista à TV Mirante.
Mulher trans atacada com garrafa quebrada em Rosário relata dor e trauma
Vítima afirma que não houve discussão
Guida relatou que o suspeito aparentava estar tranquilo durante a conversa. Segundo ela, nada indicava que seria atacada momentos depois.
“Ele estava aparentemente normal, super amigável, sabe? A gente não teve nenhuma discussão, não teve briga”, afirmou.
De acordo com a vítima, o homem se aproximou quando ela estava de saída e usou uma garrafa quebrada para golpeá-la.
A mãe de Guida, Marlene Esteves, contou que estava em casa, mas sentia que algo não estava bem. Ao chegar ao hospital, encontrou a filha ferida e a sala de atendimento com muito sangue.
A jovem afirma que chegou a ter medo de sair de casa e dificuldade para se olhar no espelho. O apoio da mãe e dos amigos tem ajudado durante a recuperação.
“Eu estava com medo até de sair de casa. Eu não conseguia me olhar no espelho, sabe? Traumatizada. Vivi de novo, sabe? Sobrevivi. Deus me deu uma vida de novo", disse a vítima.
Suspeito alegou embriaguez e impulso
Segundo a Polícia Civil, a vítima foi atingida na cabeça e no rosto com uma garrafa de cerveja quebrada, na Praça da Matriz.
Divulgação/ Polícia Civil
Segundo o delegado regional de Rosário, Adriano Mendes, o homem admitiu ter agredido Guida. Em depoimento, ele alegou que houve provocações e afirmou que estava embriagado e agiu por impulso.
A Polícia Civil, no entanto, considera que a violência empregada colocou a vida da vítima em risco.
“As investigações demonstram que o homicídio apenas não se consumou por intervenção de terceiros, porque o autor quebrou uma garrafa de vidro que estava em sua mão e golpeou a vítima em partes vitais do corpo, como a face, a cabeça e o tórax”, disse o delegado.
A prisão preventiva foi solicitada pela Polícia Civil e autorizada pela Justiça. Após os procedimentos na delegacia, Alberto Felipe foi encaminhado ao sistema prisional, onde permanece à disposição da Justiça.
Em nota enviada à TV Mirante, a defesa de Alberto Felipe Caires Mendonça informou que não vai se manifestar.
Polícia não identificou motivação ligada à identidade de gênero
A TV Mirante questionou a Polícia Civil sobre a tipificação do caso. A corporação respondeu que, até o momento, a investigação não identificou elementos que indiquem que o crime tenha sido motivado pela identidade de gênero de Guida.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão (OAB-MA), Erik Moraes, defendeu que uma possível motivação transfóbica seja investigada.
“É muito importante a investigação sobre a possibilidade de transfobia, pois ela altera completamente o enquadramento penal, as regras processuais e o endurecimento da pena”, afirmou.
Segundo a Associação Maranhense de Travestis e Transsexuais, dez agressões contra pessoas trans foram registradas no estado entre dezembro de 2025 e junho de 2026.
“A transfobia é algo estrutural, assim como o racismo, né?”, afirmou a presidente da associação, Andressa Sheron. Ela também defendeu o enfrentamento à violência e às violações de direitos da população trans.
A Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular informou que desenvolve projetos voltados à promoção dos direitos da população LGBTQIA+.